- antes que o sol se vá, soledade, soledade
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_nowadays_
- October 6th, 21:40
Como muita gente da minha geração cresci com a imagem decadente dos últimos anos de vida da senhora dona Amália, as sátiras em programas televisivos e com a ideia de que além de ser um ser humano, era uma instituição, a perder a graça e o vigor de anos anteriores.
No entanto, os fados imortalizados por ela e repescados por alguns nomes debutantes do fado, continuaram sempre num lugar particular do meu subconsciente, porque fado não era e ainda não é o estilo que mais aprecio, embora seja, confesso, um dos que mais me identifico, pela melancolia, a saudade e tudo e tudo e tudo.
Quando há uns meses largos correram os primeiros rumores de que o Nuno Gonçalves andava a preparar um disco de versões sobre fados da senhora dona Amália fiquei, como certamente muita gente terá ficado, surpreso. Se havia pessoa mais improvável para tal tarefa era o Nuno. Contudo, sabia que dali não poderia sair algo que me desiludisse, pois quem faz um Me, myself and I ou um Butterfly, tem boa alma.
Meses depois consegui ir à apresentação para a imprensa do disco e comprovei o que esperava: ali haviam canções, completamente descontextualizadas do fado mas com a omnipresença do dito, havia emoção, havia ainda gente mais improvável que o próprio Nuno Gonçalves. E a coisa resultava estranhamente bem.
As nove canções rodaram durante meses no meu leitor de mp3, na minha aparelhagem, no auto-rádio, na minha cabeça; com as apresentações ao vivo por terras díspares, vieram outras duas, o com que voz e o rasga o passado e a vontade de finalmente os conseguir ver ao vivo crescia.
Ontem, e numa sala consideravelmente composta, consegui finalmente assistir à consagração ao vivo do projecto com elementos de luxo, que para mim era uma aposta ganha. E foi. Não tento sido um espectáculo daqueles que nos deixam com o coração nas mãos, que nem era certamente essa a intenção dos quatro elementos do núcleo central dos Hoje, teve os seus momentos top lágrima, como a prestação de Sónia Tavares no Medo, com um coliseu completamente em silêncio para escutar as palavras que lhe saíam como setas e as notas do coro, da orquestra e do órgão a imitar um piano, ou a surpresa do inédito Soledade, uma vez mais na voz da Sónia Tavares e finalizada em conjunto com as outras duas vozes, Fernando Ribeiro e Paulo Praça. Só por este tema, já merecia ser editado o concerto num formato áudio. Ou vídeo.