Era simples assim.
Ela sabia, assim como ele e todos os outros, que nunca seria capaz de entender o porquê das coisas terem dado errado, do jeito que deram. Por mais que tentasse se esforçar, não entendia, e isso a matava por dentro.
Não o fato de o ter perdido, mas o fato de que alguma coisa tenha realmente dado errado. O que é muito engraçado, porque geralmente, era ela quem deveria dar as cartas, e dizer quando algo dava errado. (E, digasse de passagem, todos sempre abaixavam as cabeças e obedeciam.)
Abriu as janelas do apartamento escuro, que a muito estava fechado, já que ela passara a dormir na casa dele com mais frequência. Estavam quase morando juntos.
Maldita linha que separa os extremos. Que apresenta o quase no meio do jogo.
Abriu uma garrafa de vinho caro - que obviamente, ela havia roubado do apartamento dele - e o abriu, servindo-se de uma taça. Era tinto, o seu preferido.
Sentou-se perto da janela, e girou a taça, vendo o vinho se mexer com uma certa sequência.
Olhou para a fora, sem analisar um ponto específico, analisando quando que as coisas começaram a sair de seu controle. Não estava certo, não era para eles terminarem.
Viu que começara a chover, e que as gotas de chuvas caíam pesadamente nas ruas, sem nunca molhar o seu território. Mas isso não a preocupava, já que não era uma garotinha.
Sendo assim, não iria ficar se remoendo como uma idiota, que chora as lágrimas com a primeira amiga que aparece, porque isso sinceramente, não era de seu feitio.
Mas lhe intrigava, o fato de ele ter dispensado uma mulher como ela.
O corpo? Não era uma modelo, mas quem seria?
Possuía respostas rápidas, e uma mente audaz. Ele costumava dizer que seus olhos eram afiados e viam de longe a situação e as circunstâncias nas quais se encontravam.
Não deixava nada passar barato; Não levava desaforo para casa, simplesmente porque sabia que isso faria com que ela morresse cedo.
(E a última coisa que ela queria, era deixar o mundo sem a sua ilustre presença).
Aquela insistente melodia soava em seus ouvidos, como aquela música ruim que você escuta alguém cantarolar no metro, e simplesmente não consegue se lembrar de onde a conhecia.
Mas ela sabia aonde ela tinha escutado. Sabia muito bem quando, com quem e onde.
"Bastardo." Ela murmurou, tomando um gole do vinho quase esquecido na taça.
Lambeu os beiços e por um breve momento, flashes vieram em sua mente das tórridas noites que passaram juntos.
E agora, ele estava com outra. Suas noites tórridas agora, eram com outra.
"Canalha." Cerrou os olhos, e bebeu outro gole de seu vinho.
Juras de amor... Há! Quem ele pensara que ela era? Uma garotinha ridícula de ginásio, que se derretia de amores pelo primeiro que falasse "Eu te amo" para ela? Não... Nunca fora e jamais seria esse tipo, porque não era de seu feitio.
"Cretino." Então, o que era do seu feitio? Ela pensou, virando outro gole, goela abaixo.
Estava acostumada a ter todos na palma de sua mão, com sua ginga sedutora, com seus olhares atravessados, e com seu sorriso provocante. Sabia que o exterior era que os interessava, e era apenas isso que ela precisava.
Ele tinha feito com que ela ficasse em dúvida de todo o modo que ela levava sua vida, desde que se entendia por gente. Afinal, pisava em quem quer que passasse pelo seu caminho, já que ela queria as coisas do modo dela. Quando ela queria e porque ela queria.
Será que estava deixando de ser atraente? Será que não provocava mais a atenção dos homens, mesmo aqueles bem-casados?
Filho da puta, como se atrevia a colocar em dúvida seu poder de sedução?
Deu de ombros. Vai ver já estava com esse pensamento há muito tempo, ele só estivera adormecido. E assim, quando ele disse já chega, ele despertou esses pensamentos.
Será que, apesar de fazer todos rastejarem sobre os seus pés, ela tinha o direito que querer algo mais que isso? De querer um príncipe encantado, em um cavalo branco, com um buque de rosas nas mãos, pronto para salvá-la do inferno que era sua vida?
"Claro que não." Ela não tinha o direito de nada, e sabia. Já que ao mesmo tempo, tinha todos os direitos do mundo, com esse exterior encouraçado e tentador, que Deus lhe concedera.
Era simples assim.
Ela queria, os outros cediam, e assim a vida seguia seu curso.
Mas ela queria mais. Queria descobrir que desejo latente era esse, que crescia em seu peito.
Ouviu batidas insistentes na porta.
Levantou-se com a melodia partindo para os acordes mais agressivos da música.
Abriu a porta, e não viu ninguém mais, ninguém menos que ele.
E então, sem mais nem menos, ele a agarrara, e a beijara de uma maneira avassaladora, quando a última coisa que conseguia lembrar, era a taça de vinho esquecida em cima de uma mesinha, ainda sem ter sido terminada.
Simples assim.
Enrolou-se em um robe que estava jogado no chão, e abriu as cortinas, deixando a luz do sol iluminar todos os pontos escuros do quarto, que ainda mantinham o cheiro de sexo da noite passada. Os lençóis ainda estavam enrolados em cima da cama, da mesma maneira como ela havia deixado na última noite.
Depois da noite, teve o luxo e o prazer de o expulsar de sua casa, alegando que um remember era sempre bom de vez em quando, mas quem ditava as regras era ela, e ele deveria saber disso, e ter pensado duas vezes, quando a dispensara no dia anterior.
Pegou aquele vinho do dia anterior e o cheirou, vendo se estava bom para tomar.
Depois que se certificou, sentou-se na mesma poltrona do dia anterior, e voltou a analisar um ponto qualquer do lado de fora da janela. Agora não estava mais chovendo, e as pessoas passavam correndo, aparentemente atrasadas para o trabalho.
Sorriu presunçosa, acreditando que o dia teria mudado por sua causa, já que agora estava de bom humor.
Não teria mais nenhum relapso igual ao da noite passada.
Não duvidaria mais de suas capacidades, e nem deixaria que outro a fizesse duvidar.
Se era apenas o exterior, era apenas problema dela, e isso não interessava mais a ninguém.
Terminou o seu vinho e jogou a taça para fora da janela, pensando o que faria no dia de hoje.
[Pequeno texto de minha autoria, que fluiu, de repente, sem eu nem consegur controlar.]